quarta-feira, 1 de julho de 2015
GCERES OS PROTEGIDOS DA PRINCESA (FLORIANÓPOLIS/SC)
Sinopse Enredo 2016
PRIMAVERAS RUSSAS: UMA HISTÓRIA DO MUNDO EM
PARTITURAS
JUSTIFICATIVA
Quando começamos a pensar a Rússia como tema de
enredo de escola de samba, amplitude se tornou fascínio e desafio. É o país
mais extenso do planeta, um imenso território que se estende por dois
continentes, com dezenas de séculos de histórias possíveis de serem contadas.
Nenhum enredo deve ter ambição totalizante. Quem pretende falar de tudo não
fala de nada. É precisamente da ideia de “uma história possível” que nasce o
nosso enredo para o Carnaval 2016.
O tema será tratado sob um olhar específico: como a música expressa o espírito de diferentes momentos da história da Rússia vividos ou imaginados por seus compositores e público. A narrativa será dividida em três atos, prólogo e epílogo, como em alguns balés e peças teatrais. Considerando que narrar é contar uma passagem de tempo em que ocorrem mudanças, concentraremos nossa narrativa na passagem do século XIX para o “curto século XX”, quando a Rússia protagonizou alguns dos momentos mais efervescentes da história mundial.
Essa concentração é possível porque o tempo da história é diferente do tempo cósmico. Enquanto o tempo cósmico pode ser medido pelo movimento dos astros e fracionado pela escala do relógio, sempre igual, o tempo da história é regido pelo processo que se quer contar. O ritmo da narrativa acompanha o ritmo das transformações significativas para nossa abordagem.
O título “Primaveras Russas” alude aos fatos importantes que aconteceram nesta estação, associada na natureza e na história a transformação, renovação e florescimento. É “uma história do mundo” porque não acontece isolada em seu espaço geográfico, mas entrelaçada ao que acontecia na dinâmica do planeta. Será contada “em partituras” porque a música é o caminho escolhido para expressar o espírito de diferentes momentos – selecionando entre muitas obras algumas que servem à construção desta narrativa - como fio condutor que interliga outros dados artísticos, sociais, políticos e culturais.
É um caminho possível, uma história possível. Não é a única, não é a total, é a história que preparamos para realizar um grande carnaval à altura da monumentalidade russa. Abram-se as cortinas, o espetáculo vai começar!
O tema será tratado sob um olhar específico: como a música expressa o espírito de diferentes momentos da história da Rússia vividos ou imaginados por seus compositores e público. A narrativa será dividida em três atos, prólogo e epílogo, como em alguns balés e peças teatrais. Considerando que narrar é contar uma passagem de tempo em que ocorrem mudanças, concentraremos nossa narrativa na passagem do século XIX para o “curto século XX”, quando a Rússia protagonizou alguns dos momentos mais efervescentes da história mundial.
Essa concentração é possível porque o tempo da história é diferente do tempo cósmico. Enquanto o tempo cósmico pode ser medido pelo movimento dos astros e fracionado pela escala do relógio, sempre igual, o tempo da história é regido pelo processo que se quer contar. O ritmo da narrativa acompanha o ritmo das transformações significativas para nossa abordagem.
O título “Primaveras Russas” alude aos fatos importantes que aconteceram nesta estação, associada na natureza e na história a transformação, renovação e florescimento. É “uma história do mundo” porque não acontece isolada em seu espaço geográfico, mas entrelaçada ao que acontecia na dinâmica do planeta. Será contada “em partituras” porque a música é o caminho escolhido para expressar o espírito de diferentes momentos – selecionando entre muitas obras algumas que servem à construção desta narrativa - como fio condutor que interliga outros dados artísticos, sociais, políticos e culturais.
É um caminho possível, uma história possível. Não é a única, não é a total, é a história que preparamos para realizar um grande carnaval à altura da monumentalidade russa. Abram-se as cortinas, o espetáculo vai começar!
SINOPSE
PRÓLOGO – A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA
Enxames de flautas se orquestram entre a relva,
fazendo as abelhas dançarem de flor em flor, carregando o pólen e perpetuando o
milagre da vida. Nas colinas da Rússia, as tribos festejam em rituais. Anciãs
preveem um futuro glorioso para aquelas terras, enquanto jovens dançam o
Khorovod (círculo da primavera). Homens e Terra se tornam um só e “a escolhida”
dança até a morte na sagração da primavera.
As estruturas rítmicas complexas, o uso de timbres incomuns e as dissonâncias estampam em partituras a inovação no balé composto por Stravinsky. A música é uma das mais importantes expressões da cultura russa, perpassando toda sua história, da qual é ao mesmo tempo parte e portadora. Balés, sinfonias, óperas e canções contam histórias e traduzem o espírito de seu tempo. Stravinsky lançou um olhar musical sobre os mistérios sobrenaturais das etnias que habitavam a Rússia antes da formação do Império.
Quando “Le Sacre Du Printemps” estreou em Paris, a plateia se agitou em sonoras vaias e gestos de reprovação, sendo necessária intervenção policial para conter os ânimos no Théâtre des Champs-Élysées. Os passos bruscos e as melodias que remetiam ao folclore russo traduzindo rituais pagãos chocaram a distinta plateia que acabara de assistir a um balé inspirado na música de Chopin, à qual seus ouvidos estavam familiarizados.
As estruturas rítmicas complexas, o uso de timbres incomuns e as dissonâncias estampam em partituras a inovação no balé composto por Stravinsky. A música é uma das mais importantes expressões da cultura russa, perpassando toda sua história, da qual é ao mesmo tempo parte e portadora. Balés, sinfonias, óperas e canções contam histórias e traduzem o espírito de seu tempo. Stravinsky lançou um olhar musical sobre os mistérios sobrenaturais das etnias que habitavam a Rússia antes da formação do Império.
Quando “Le Sacre Du Printemps” estreou em Paris, a plateia se agitou em sonoras vaias e gestos de reprovação, sendo necessária intervenção policial para conter os ânimos no Théâtre des Champs-Élysées. Os passos bruscos e as melodias que remetiam ao folclore russo traduzindo rituais pagãos chocaram a distinta plateia que acabara de assistir a um balé inspirado na música de Chopin, à qual seus ouvidos estavam familiarizados.
ATO I – A ERA DOS CZARES
Nos suntuosos salões da Rússia imperial, as
peças para piano e orquestra estavam entre as preferidas da corte. Os nobres se
consideravam herdeiros do Príncipe Igor, herói que liderou a resistência contra
invasões e foi transformado em ópera por Borodin. Ao mesmo tempo, idealizavam
seus palácios e sua vida opulenta como parte de um universo mágico. As meninas
sonhavam ser “A Donzela da Neve” – ópera de Rimsky-Korsakov. Naquele império
idealizado, todos dariam a vida incondicionalmente pelo czar, como Ivan
Susanin, personagem de ópera criada por Mikhail Glinka, o pai da música erudita
russa, incentivador do patriotismo na arte.
Consagrado como o grande compositor do Império por excelência, Tchaikovsky exprimiu em sua música o espírito da era dos czares – nome dado aos soberanos numa derivação de “césar”. Em seu mundo fantástico, quebra-nozes ganham vida, belas adormecem à espera do príncipe encantado e princesas são transformadas em cisnes brancos, bailando na busca de um final feliz.
Na primavera de 1776, a czarina Catarina, “A Grande”, autorizou uma trupe a organizar representações teatrais, concertos e mascaradas. A fama do Bolshoi – “O Grande” - ganharia o mundo e sua companhia de ballet estrearia, um século mais tarde, “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. O compositor, autor de várias obras de cunho nacionalista, teve a gratidão do império expressa por uma pensão vitalícia. A Dinastia Romanov, contudo, não teria um final feliz...
Consagrado como o grande compositor do Império por excelência, Tchaikovsky exprimiu em sua música o espírito da era dos czares – nome dado aos soberanos numa derivação de “césar”. Em seu mundo fantástico, quebra-nozes ganham vida, belas adormecem à espera do príncipe encantado e princesas são transformadas em cisnes brancos, bailando na busca de um final feliz.
Na primavera de 1776, a czarina Catarina, “A Grande”, autorizou uma trupe a organizar representações teatrais, concertos e mascaradas. A fama do Bolshoi – “O Grande” - ganharia o mundo e sua companhia de ballet estrearia, um século mais tarde, “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. O compositor, autor de várias obras de cunho nacionalista, teve a gratidão do império expressa por uma pensão vitalícia. A Dinastia Romanov, contudo, não teria um final feliz...
ATO II – A CHAMA VERMELHA
No início do século XX, o contraste entre o
mundo idealizado pelos czares e a realidade do povo começava a inspirar a
transformação da intranquilidade em rebelião e insurreição. As ideias de um
certo alemão Karl Marx causavam forte ebulição. Sob o gelo do inverno,
adormecia a semente revolucionária de um povo que se via na miséria e sem
perspectivas no horizonte.
Os revolucionários de 1917 não se sentiam representados pela atmosfera onírica das músicas do império. Buscaram na Revolução Francesa a inspiração, com seus ideais de Liberté, Égalité e Fraternité, que viraram aquele país de ponta-cabeça e fizeram emergir as primeiras canções do proletariado. Entre elas, “A Marselhesa” caiu na boca das multidões, falando da resistência contra a tirania.
Quando a Comuna de Paris estabeleceu o primeiro governo operário do planeta, um trabalhador da indústria têxtil compôs “A Internacional”. Feita para ser cantada sobre a melodia de “A Marselhesa”, foi publicada em “Quem é o louco?”, livro com 50 poemas. Anos mais tarde ganhou melodia própria e chegou até a Rússia. Seus versos conclamavam os ideais da Revolução. “Paz entre nós, guerra aos senhores! Façamos greves de soldados! Somos irmãos, trabalhadores!”.
Varrida do mapa, a monarquia dava lugar aos conselhos operários, os sovietes. Os produtores da riqueza assumiam as rédeas de seu próprio destino, no sonho de construir uma terra sem amos, onde em vez de lutar por patrões, czares e burgueses, o ideal seria o bem comum. À música, se unia a forte linguagem do cinema, que começava a ascender, com filmes como “O Encouraçado Potemkin”, sobre uma revolta de marinheiros num navio de guerra.
“A Marselhesa” logo inspirou uma nova canção popular, “A Marselhesa Operária” que, caindo na boca do povo, se tornou o hino provisório da União Soviética. Mais tarde, foi substituído por “A Internacional”, que inflamou as massas, se tornando inspiração para comunistas, socialdemocratas e anarquistas por todo o planeta.
Os revolucionários de 1917 não se sentiam representados pela atmosfera onírica das músicas do império. Buscaram na Revolução Francesa a inspiração, com seus ideais de Liberté, Égalité e Fraternité, que viraram aquele país de ponta-cabeça e fizeram emergir as primeiras canções do proletariado. Entre elas, “A Marselhesa” caiu na boca das multidões, falando da resistência contra a tirania.
Quando a Comuna de Paris estabeleceu o primeiro governo operário do planeta, um trabalhador da indústria têxtil compôs “A Internacional”. Feita para ser cantada sobre a melodia de “A Marselhesa”, foi publicada em “Quem é o louco?”, livro com 50 poemas. Anos mais tarde ganhou melodia própria e chegou até a Rússia. Seus versos conclamavam os ideais da Revolução. “Paz entre nós, guerra aos senhores! Façamos greves de soldados! Somos irmãos, trabalhadores!”.
Varrida do mapa, a monarquia dava lugar aos conselhos operários, os sovietes. Os produtores da riqueza assumiam as rédeas de seu próprio destino, no sonho de construir uma terra sem amos, onde em vez de lutar por patrões, czares e burgueses, o ideal seria o bem comum. À música, se unia a forte linguagem do cinema, que começava a ascender, com filmes como “O Encouraçado Potemkin”, sobre uma revolta de marinheiros num navio de guerra.
“A Marselhesa” logo inspirou uma nova canção popular, “A Marselhesa Operária” que, caindo na boca do povo, se tornou o hino provisório da União Soviética. Mais tarde, foi substituído por “A Internacional”, que inflamou as massas, se tornando inspiração para comunistas, socialdemocratas e anarquistas por todo o planeta.
ATO III – NO LOOP DA MONTANHA-RUSSA
As primeiras décadas do governo operário
inspiraram diversas canções, como “Lutaremos com bravura”, “Nossa locomotiva” e
“Bandeira vermelha”, com claro espírito de progresso, orgulho e crença no
caráter positivo daqueles novos tempos. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi
lançada a composição que fala da jovem Katyusha, a pequena Catarina, que
guardava cartas e saudades às margens do rio, à espera de um soldado por quem
era apaixonada. É até hoje uma das canções mais conhecidas na Rússia.
O Exército Vermelho tinha seu próprio coral, com mais de 300 membros, incluindo orquestra e dançarinos. Cantava suas glórias – como em “Nós Somos a Cavalaria Vermelha” - e algumas canções populares na União Soviética, sendo o braço musical da criação de uma “cultura socialista”. Se o império construía uma identidade a partir da música, o realismo socialista imprimiu na arte o estilo grandioso e emocional que pretendia como identidade soviética. Os músicos dos tempos do império que não se exilaram foram obrigados a aderir a essa estética. O novo hino soviético, composto por Prokofiev, trazia o tom solene e oficialesco, desconectado do caráter popular de outros tempos, acompanhando a transformação gradativa do governo em uma mão poderosa e pesada sobre o povo. “A União indestrutível das repúblicas livres, a Grande Mãe-Rússia consolidou para sempre. Viva a criada pela vontade dos povos, unida, poderosa União Soviética!”
O fim do grande conflito armado levou à disputa pela hegemonia global, transformando o mundo num grande tabuleiro de xadrez. União Soviética e Estados Unidos protagonizaram a Guerra Fria: o mundo dividido em dois lados. A música oficial servia também para expressar o espírito de grandiosidade de cada ação naqueles tempos e se articulava a outras formas de propaganda. Com o mundo dividido em blocos de influência, a gigantesca corrida armamentista levou a um dos mais loucos delírios humanos, a disputa pelo controle dos céus. A grande corrida espacial! Na primavera de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a viajar pelo espaço. Olhou para todos os lados e não viu Deus... mas viu a Terra! "A Terra é azul! Como é maravilhosa! Ela é incrível!"
O imaginário sobre o período é repleto de imagens de espiões e polícias secretas nas telas do cinema. A cena esportiva foi uma forte propaganda do regime comunista e teve nas lágrimas do ursinho Misha, nas Olimpíadas de Moscou, seu "canto do cisne". Uma década mais tarde, o muro que dividia Berlim - e, simbolicamente, os dois lados do mundo - caiu e o sonho vermelho se desfez. Se o desenrolar do século XX teve a União Soviética como protagonista, a intensidade daqueles dias é comparável ao sobe-e-desce de uma montanha russa.
O Exército Vermelho tinha seu próprio coral, com mais de 300 membros, incluindo orquestra e dançarinos. Cantava suas glórias – como em “Nós Somos a Cavalaria Vermelha” - e algumas canções populares na União Soviética, sendo o braço musical da criação de uma “cultura socialista”. Se o império construía uma identidade a partir da música, o realismo socialista imprimiu na arte o estilo grandioso e emocional que pretendia como identidade soviética. Os músicos dos tempos do império que não se exilaram foram obrigados a aderir a essa estética. O novo hino soviético, composto por Prokofiev, trazia o tom solene e oficialesco, desconectado do caráter popular de outros tempos, acompanhando a transformação gradativa do governo em uma mão poderosa e pesada sobre o povo. “A União indestrutível das repúblicas livres, a Grande Mãe-Rússia consolidou para sempre. Viva a criada pela vontade dos povos, unida, poderosa União Soviética!”
O fim do grande conflito armado levou à disputa pela hegemonia global, transformando o mundo num grande tabuleiro de xadrez. União Soviética e Estados Unidos protagonizaram a Guerra Fria: o mundo dividido em dois lados. A música oficial servia também para expressar o espírito de grandiosidade de cada ação naqueles tempos e se articulava a outras formas de propaganda. Com o mundo dividido em blocos de influência, a gigantesca corrida armamentista levou a um dos mais loucos delírios humanos, a disputa pelo controle dos céus. A grande corrida espacial! Na primavera de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a viajar pelo espaço. Olhou para todos os lados e não viu Deus... mas viu a Terra! "A Terra é azul! Como é maravilhosa! Ela é incrível!"
O imaginário sobre o período é repleto de imagens de espiões e polícias secretas nas telas do cinema. A cena esportiva foi uma forte propaganda do regime comunista e teve nas lágrimas do ursinho Misha, nas Olimpíadas de Moscou, seu "canto do cisne". Uma década mais tarde, o muro que dividia Berlim - e, simbolicamente, os dois lados do mundo - caiu e o sonho vermelho se desfez. Se o desenrolar do século XX teve a União Soviética como protagonista, a intensidade daqueles dias é comparável ao sobe-e-desce de uma montanha russa.
EPÍLOGO – ENTRE BAILARINOS E COSSACOS
Nas partituras do tempo, as notas musicais
trazem uma Rússia exibindo seu legado ao mundo. Tantos são os escritores,
músicos, pensadores, cineastas, cientistas... e bailarinos!
A terra de Nijinski, Nureyev e Baryshnikov planta em Santa Catarina a semente da dança. No estado que leva o mesmo nome da czarina que autorizou a criação do grupo, o Ballet Bolshoi tem sua única escola em outro país, celebrando a amizade, o respeito e a união entre nossas nações. Foi inaugurada em 15 de março de 2000. Em poucos dias, floresceria a primavera na Rússia e um verdadeiro jardim musical se perpetuaria por Joinville, a cidade das flores.
Enquanto isso, o imaginário popular recria a terra colossal outrora envolta de mistérios, com seus casacos e cossacos, bailarinos e balalaicas. Ontem mesmo, “sonhei que estava em Moscou dançando pagode russo na Boate Cossacou”. Entre bonecos gigantes e sombrinhas na neve, o bailado da matrioska com o boneco de barro “parecia até um frevo naquele cai e não cai, parecia até um frevo naquele vai e não vai...”
Willian Tadeu
A terra de Nijinski, Nureyev e Baryshnikov planta em Santa Catarina a semente da dança. No estado que leva o mesmo nome da czarina que autorizou a criação do grupo, o Ballet Bolshoi tem sua única escola em outro país, celebrando a amizade, o respeito e a união entre nossas nações. Foi inaugurada em 15 de março de 2000. Em poucos dias, floresceria a primavera na Rússia e um verdadeiro jardim musical se perpetuaria por Joinville, a cidade das flores.
Enquanto isso, o imaginário popular recria a terra colossal outrora envolta de mistérios, com seus casacos e cossacos, bailarinos e balalaicas. Ontem mesmo, “sonhei que estava em Moscou dançando pagode russo na Boate Cossacou”. Entre bonecos gigantes e sombrinhas na neve, o bailado da matrioska com o boneco de barro “parecia até um frevo naquele cai e não cai, parecia até um frevo naquele vai e não vai...”
Willian Tadeu
ACADÊMICOS DO SUL DA ILHA (FLORIANÓPOLIS/SC)
Sinopse Enredo 2016
MAGIA CIGANA
Mora, no sangue cigano,
uma porção de pássaros
expulsos do Paraíso.
Só tiveram tempo
de levar consigo:
a música e a dança,
roupas do corpo,
abrigo do espírito,
cobertor de soluços
Deus logo os chamou de volta
para alegrarem de novo as festas do céu.
(“Ciganos XVI”, Ático Vilas-Boas da Mota)
uma porção de pássaros
expulsos do Paraíso.
Só tiveram tempo
de levar consigo:
a música e a dança,
roupas do corpo,
abrigo do espírito,
cobertor de soluços
Deus logo os chamou de volta
para alegrarem de novo as festas do céu.
(“Ciganos XVI”, Ático Vilas-Boas da Mota)
Diz a lenda que o povo cigano foi guiado por um
rei até Sind, na Índia. Lá viveram tempos de plena felicidade, até sua cidade
ser destruída por uma invasão muçulmana. Então começaram sua migração, vagando
errantes pelos países e continentes. A poesia persa conta que um sultão
convocou dez mil ciganos da Índia, exímios músicos, para alegrar e entreter seu
povo. Lenda e história se entrelaçam. Sabe-se que vieram da Índia – onde seu
maior contingente era formado por uma casta de guerreiros – e partiram para a
Pérsia após uma invasão muçulmana.
As caravanas chegavam nas cidades medievais e
proclamavam a liderança de falsos nobres. Os ciganos inventavam documentos e
títulos de nobreza – eram duques, barões e condes de mentirinha – para
transitar livremente pela Europa. Afirmavam ser da corte de Sigismundo, rei da
Hungria, condenados pela Igreja a peregrinar para restabelecer sua fé. E assim
chegaram a Constantinopla, onde se dizia que ensinavam “coisas diabólicas”, ao
Peloponeso na Grécia – foram considerados sobreviventes de Atlântida! - e à
Península Ibérica. A vida nômade desses nobres errantes acabou lhes valendo o
talento para o comércio, levando tralhas e mercadorias exóticas de um lado para
o outro. Esses grandes ferreiros ficaram conhecidos no mundo todo por seus
tachos, bules, jarros e chaleiras de ferro e cobre.
Com as portas das cidades abertas, a mesma
música que encantou o sultão persa – e também a nobreza húngara, que mantinha
orquestras ciganas – cativava e a dança era uma grande atração nas festas das
cortes do Velho Mundo. No ostentoso desfile das tropas turcas para o sultão
Mourad IV, dançarinos ciganos seguiam os músicos. Nos castelos das cortes
europeias, esses espetáculos de dança eram comuns, desde os tempos de Henrique
IV na França. O próprio Luís XIV, o extravagante Rei Sol, dançou vestido de
cigano em um ato de uma peça de Moliére que incluía um grupo de bailarinos
dançando ao som de pandeiros. Através dos séculos, os ciganos desenvolveram
danças com leques, punhais, lenços e adagas. Na Espanha, o encontro entre
ciganos e árabes deu origem ao flamenco da Andaluzia, uma das danças mais
espetaculares já inventadas.
Desde o começo de sua viagem pelo mundo, os
ciganos não levaram consigo as divindades da Índia. Por onde passavam, se
adaptavam às crenças locais e incorporavam novos hábitos. Liam o destino nas
linhas das mãos, nas cartas de baralho, nas borras do café, jogos de dados e
cristais, costumes que são sua marca até hoje. Porém, os mesmos mistérios que
fascinavam provocavam medo. Se em alguns lugares os ciganos encantavam, eram
afugentados de outros, perseguidos e condenados – em alguns casos, à morte.
Arderam nas chamas da Inquisição e foram degredados para outras terras.
Escravizados na Romênia, foram vítimas do Nazismo durante a Segunda Guerra
Mundial.
No Brasil, onde os primeiros ciganos degredados
chegaram em 1574, a magia cigana foi sincretizada aos cultos da Umbanda,
através de incorporações de toda uma linha de entidades ciganas. A magia dos
olhos que decifram o futuro inspirou Machado de Assis, com sua Capitu que tinha
olhos de ressaca e “de cigana oblíqua e dissimulada”. Tiveram uma nova imagem
envolta em mistério e romance construída em novela e canção – a inesquecível
Sandra Rosa Madalena, bonita e de cabelos muito negros, com seu corpo que dança
sem parar. Não encontraram nestas terras a paz plena tão sonhada, mas
certamente seu espírito livre influenciou seus filhos a sonharem com um amanhã
diferente. Juscelino Kubitschek, descendente de ciganos, em um delírio redentor
imaginou construir em Brasília a capital de um novo tempo.
Conta a cultura milenar do povo cigano que a
Lua simboliza a magia e os mistérios, enquanto o Sol é talismã de riqueza e
prosperidade. Em sua leitura da sorte através das cartas, a proximidade do
astro-rei ilumina com seus raios banhando de fortuna o consulente e a soberana
da noite aponta para grandes honras. A gestante acaricia sua barriga ao nascer
do Sol e da Lua, num ritual diário pedindo sorte e felicidade.
Com esta mística positiva que o Sol e a Lua
trazem para todos, saudamos as forças da natureza e seus quatro elementos,
clamando por dias de tolerância, fraternidade e alegria. Como uma criança
cigana, nos banhamos em moedas e pétalas de rosa, evocando o raiar de uma nova
era. Venham, ciganos de todas as partes! A Passarela será de vocês! Façam seu
grande cortejo para Santa Sara Kali! Tragam suas vidas nas carroças, suas tendas
coloridas, seus enfeites de metal! Acendam sua fogueira, toquem seu pandeiro,
com barulho, risos, dança e brilho! Esta é uma grande noite para celebrar sua
história e sua magia! Optchá!
“Liberdade, essa palavra que o sonho humano
alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...”
(Cecília Meirelles, descendente de ciganos)
GRES PORTELA (RIO DE JANEIRO/RJ)
Sinopse Enredo 2016
NO VOO DA ÁGUIA, UMA VIAGEM SEM FIM...
RESUMO
O voo da Águia da Portela, em 2016, nos conduzirá a lugares
distantes, uma viagem sem fim que atravessa a história da humanidade. Desde a
Antiguidade, as viagens se tornaram uma prática constante pela expansão de
fronteiras, por conquistar novos horizontes e fortunas, adquirir conhecimento.
Movem mundos e mapas, trilhas e destinos. Inspiram fantasias e trajetórias.
Realidade e imaginação se provocam, se misturam em rotas e roteiros
fascinantes. Invadem terras e textos. Viajantes em busca de novas paisagens, de
aventuras e de riquezas, de planetas ainda inexplorados, talvez inexistentes,
descrevem em seus relatos os lugares que desenharam em seus mapas. Eles
orientam o mundo através de narrativas que atravessam o tempo e chegam até nós
para que possamos saber o que encontraram e como superaram todos os perigos e
obstáculos. Os livros contam histórias reais que nos parecem inacreditáveis e
mostram um universo de fantasia que pode ser vivido como realidade.
O homem é um ser inquieto. Deseja, busca, vence desafios que
encontra em seu caminho e nunca desiste. Inventa e se reinventa para percorrer
grandes distâncias, romper fronteiras, ganhar o mundo. É capaz de criar um
mundo virtual para navegar e chegar a todos os cantos do planeta sem sair do
lugar. Esse desejo de buscar o que não está ao alcance de sua mão faz do homem
um viajante que vive uma procura interminável. Avançar, descobrir, ir em
frente, continuar. Para viajar, basta existir... A viagem não acaba nunca... O
fim de uma viagem é apenas o começo de outra...
O DESFILE
ABERTURA
Nas asas da Águia, estão a força e a coragem para embarcar nessa
viagem sem fim. Símbolo de liberdade, de nobreza e de sabedoria, ela é a rainha
dos céus. Seu voo é de magia e de beleza, encanto que nos leva à emoção do
tempo da mitologia grega, onde homens invencíveis desafiavam deuses. O poema
Odisseia, de Homero, é conhecido por ser a obra fundadora das narrativas de
viagem. Odisseu, ao voltar da Guerra de Tróia, viaja por 20 anos para retornar
a sua casa, na Ilha de Ítaca. Amaldiçoado por Poseidon, o bravo guerreiro
enfrenta tormentas e adversidades que, por vingança, a ele lança o deus dos
mares. Nos versos finais do poema, Ulisses, como ficou conhecido esse herói
entre os romanos, é comparado à águia rasgando as nuvens ao perseguir seus
inimigos.
O pássaro também está presente em mais uma viagem marcante, que
está descrita na Bíblia: a Travessia do Mar Vermelho em busca da Terra
Prometida. Na chegada de Moisés ao Monte Sinai, Deus lhe diz: “Vós tendes visto
o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos trouxe a
mim...”.
E a Águia também nos conduzirá na viagem da Portela. Ela que
“desperta sua ninhada, paira sobre seus filhotes e, em seguida, estende as asas
para apanhá-los, carregando-os sobre elas”, nos guiará na Avenida.
Segurem o mapa da história e realizem o seu desejo mais vital, a
Portela vai voar, é Carnaval!
MAR ADENTRO, MUNDO AFORA
O voo da Águia nos leva aos caminhos de quem atravessou
continentes com seus barcos, galeras, caravelas! Seguem, agora, os navegantes
de diferentes povos que rasgaram os sete mares desenhando mapas! O vento sopra
em suas velas e o céu lhes serve como guia para vencer a escuridão e chegar a
terras distantes. Os corajosos comandantes superam o perigo e o desconhecido
para nos mostrar a rota mais segura. Se lançam mar adentro, descobrem o mundo
afora e deixam para a história o relato de suas viagens. Por mares nunca
d’antes navegados, nem mesmo o mais terrível monstro imaginado impede que
continuem vencendo águas violentas, a quem entregam o barco e a própria vida.
VIAGENS IMAGINÁRIAS
O sonho de pássaro é livre e surpreendente! Revela lugares
fantásticos e misteriosos, de onde surgem viagens eternas e envolventes, frutos
da criação humana. São histórias extraordinárias de tirar o fôlego, que nos
levam a viajar no tempo, ao fundo do mar ou a uma incrível jornada nas
estrelas. Tudo pode acontecer com os personagens desse mundo de sonho e de
magia, que prende a atenção e liberta a fantasia.
VIAGENS EXTREMAS
Mas existem aqueles que preferem sentir na própria pele a emoção
da aventura. Gostam do prazer de correr riscos, alcançar terras inexploradas.
Valentes viajantes levantam a poeira do deserto, enfrentam a selva, entram em
florestas sombrias, exploram as geleiras, entregam o corpo a condições hostis
para a sobrevivência. E, se nada mais os seduzir, quem sabe não queiram atingir
planetas distantes e deixar pegadas em lugares onde ninguém jamais pisou. A
viagem mais extrema está na incerteza de regressar ao ponto de partida.
EM BUSCA DE MUNDOS PERDIDOS
Enquanto alguns se aventuram por outras terras, rumo ao futuro, há
aqueles que tentam decifrar os sinais deixados pelos que aqui viveram muito
tempo atrás. Quem procura por vestígios do passado segue uma interminável
trajetória na busca por respostas. Arqueólogos pesquisam restos e ruínas de
civilizações encobertas pelo tempo. Paleontólogos encontram seres
pré-históricos que impressionam quando pensamos que habitaram a Terra. Atentos,
esses cientistas investigam marcas e sinais, desvendam culturas e costumes. E
vão mais longe, em seus estudos, para saber quem vivia no planeta antes de nós.
Percorrem trilhas e pistas de mundos perdidos que ficaram pelo caminho.
O MAPA DA MINA – EM BUSCA DE RIQUEZAS
E tantas outras trajetórias revelaram tesouros que fizeram muitas
fortunas, em nome da ambição e da cobiça. A maciez das sedas, o perfume dos
incensos, o gosto das especiarias, delícias pelas quais pagaram reis e rainhas.
E o ouro e a prata que adornaram pescoços e altares? Quem trazia? Que mundos
exploraram e para onde rumaram em busca de riquezas? As grandes rotas
comerciais do passado foram responsáveis pelas trocas de produtos e culturas.
Abriram caminhos por terra e por mar. Exploraram tesouros de povos do outro
lado do mundo e saciaram desejos de impérios. É preciso percorrer essas rotas
para, quem sabe, descobrir o mapa da mina.
EU NÃO SOU DAQUI, EU NÃO SOU DE LÁ
Muitas são as formas de viajar criadas pelo homem, para navegar em
todas as dimensões: na realidade, no imaginário, no mundo virtual. E não
faltarão roteiros, enredos, lugares, estradas e ferrovias enquanto essa busca
durar.
Hoje, com um toque apenas, é possível fazer muitas viagens: abrir
janelas, percorrer milhares de quilômetros em segundos e descobrir mares,
países... se perder. Consultar a história e o poema, assistir ao vídeo e
ao espetáculo. Diante dos olhos dos internautas, o virtual vira real, em sons,
cores e movimentos. É possível voltar, avançar, procurar... pessoas, coisas e
locais. Digitar perguntas, descobrir respostas, encontrar lugares, ser
viajante, ser águia: livre, ágil, confiante. E ao final da travessia,
escolher mais um destino e recomeçar. E a Portela tão bonita vai voando na
Avenida para o carnaval conquistar!
Isabel Azevedo
Simone Martins
Ana Paula Trindade
Paulo Barros
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