quarta-feira, 18 de maio de 2016

GRES ARAME DE RICARDO (RIO DE JANEIRO/RJ)

Enredo 2017

"Ora Pois... Hoje o Banquete É Real"



"O DESEMBARQUE"
A consequência da vinda da Família Real Portuguesa para Brasil foi além da ciência, arquitetura e literatura. Herdamos dos portugueses o gosto por um bom prato! Hábitos e gestos todos incorporados ao nosso dia a dia. Antes, a alimentação dos brasileiros era desfavorecida, compostas por mandioca e seus derivados, frutos nativos e carne de caça (prática essa herdada principalmente pelos donos da terra, os nossos índios). Mas quando a Família Real aqui chegou, hum... aí tudo isso mudou!
Começamos em 1808. Com os europeus chegaram o gengibre, a mostarda, a cebola, as frutas cítricas, os bovinos, os caprinos, as aves, o arroz e os perus. Com o desembarque da Família Real para o Brasil, ganhamos também um pouco de "ar europeu", até as nossas roupas mudaram, assim como o cardápio que começou a sofrer transformações. Os hábitos alimentares da Família Real eram bem peculiares.
COLOCANDO A MESA PARA DOM JOÃO!
Tem comida do Imperador? Ora, pois: tem sim senhor!
Dom João VI consumia em uma única refeição três frangos (chegava a esconder algumas asinhas da suculenta ave, na algibeira da sua casaca) e uma sequência de cinco mangas. Dizia ele que ninguém sabia preparar um frango como seu cozinheiro, Alvarenga (A imagem do rei ficou estigmatizada como um covarde e sem iniciativa. Começou a governar a partir de 1792, em consequência da insanidade mental de sua mãe D. Maria I, e que fugiu para o Brasil tão logo que soube da notícia que as tropas de Napoleão caminhavam em direção a Portugal). Segundo relatos, Dom João VI introduziu ingredientes nacionais na dieta alimentar da família brasileira, especialmente na família dele. É o caso da manga (de Itu) e da goiaba, ainda que parte dos produtos consumidos pela Família Real viessem de fora, como amêndoas, lebres, pistache e chá. Deu até fadiga só de pensar nessa mesa.
NA DESPENSA E NA COZINHA
Dando uma olhada na despensa, descobrimos que Dona Carlota Joaquina não deixava faltar na sua lista de compras litros e litros de cachaça. Essa iguaria encabeça a lista de compras da cozinha do palácio e a maioria destinada ao quarto e a cozinha de Carlota, é claro! Ela gostava de tomar uma boa aguardente misturada com sucos de frutas, pois sofria demais com o calor brasileiro. Humm... sei!
Nas despensas também não podiam faltar os doces, o que explica, porque a aguardente era usada para conservar compotas de frutas. Já Dona Leopoldina quando veio para o Brasil, em 1817, casar com Dom Pedro I, trouxe na bagagem um carregamento de repolhos, salmões salgados, carne de porco e feijão-verde e assim ela enchia a copa do palácio. Já no fogão da cozinha real, quem também mandava era a imperatriz napolitana Teresa Cristina, ela não negava um bom prato de massa e preparava ela mesma o espaguete para sua família, ato comum para as mães de classe média da época.
COZIDO PORTUGUÊS X FEIJÃO
Relatos do pintor francês Jean-Baptiste Debret dão conta que as famílias ricas, costumavam comer cozido português, acompanhado de galinha, arroz e farinha de mandioca. O feijão ainda não aparecia na mesa das elites naquele momento. Mas, sabemos que Dom Pedro I, que não era bobo nem nada, não dispensava um bom prato de arroz com feijão. O consumo de feijão pelas elites inicialmente era velado. O feijão era símbolo da resistência da culinária regional, frente aos novos hábitos europeus. A feijoada surgiu nas senzalas, a partir dos restos de carnes aproveitadas pelos escravos. Mito ou verdade? Vai saber! A elite mudou de roupa, copiando a moda de fora, mas hoje não mudamos uma coisa: o gosto por um bom prato de feijoada!
O BAILE GASTRONÔMICO REAL
Visitando os banquetes da família real, se tem alguém que também contribuiu bastante para a nossa culinária, foi Dom Pedro II, que não era nenhum gourmet, mas ajudou a construir a cozinha tradicional do Brasil, mesmo tendo financiado apenas dois banquetes em todo o seu reinado de 58 anos. Um em 1852 e outro em 1889, justamente o da Ilha Fiscal. Quem nunca ouviu falar dessa festança? O Baile da Ilha Fiscal não apenas marcou o fim de um "regime", mas foi o ápice da gastronomia imperial e foi um banquete grandioso, diga-se de passagem! A ceia foi um capítulo à parte: seguiam-se pratos de peixe e de caça colocados alternadamente, havia enormes castelos de açúcar, em cujos torreões foram colocados bombons. Um desfile monumental de iguarias. Anota aí... 188 caixas de vinho, 80 caixas de champanhe e 10 mil litros de cerveja, além de licores e destilados. 14 mil sorvetes, 800 quilos de camarão, 64 faisões, 255 cabeças de porco, 500 perus e 20 mil sanduíches. Isso que é ostentação! Ao desembarcar na Ilha Fiscal, os convidados eram recebidos por mulheres vestidas como ninfas. Nas casas à beira-mar, a população da cidade se apertava para espiar um pouco do baile que acontecia no posto de fiscalização de navios. A cidade parou! A elite se esbaldava na festa, enquanto o povo olhava de longe.
O PÃO QUE O DIABO AMASSOU
A chegada da Corte ajudou a melhorar bastante a imagem da cidade. A nova ordem pública urbana fez o que pode para que seus habitantes e seus costumes fossem disciplinados à moda europeia, mas apenas uma pequena parte da população usufruía desses luxos. Caiu a Monarquia e entrou a República. Foi uma mudança profunda, mas que não alterou alguns costumes da grande maioria da população carioca, composta de ex-escravos, trabalhadores assalariados e imigrantes. E o resultado? Ainda tem muita gente comendo "O pão que o diabo amassou".
Pode vir que o prato está na mesa! E que prato!
Bom Apetite!
Referências:
CASCUDO, Luís da Câmara. A antologia da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2015. 320 p.
CARLOTA Joaquina, Princesa do Brasil. Direção de Carla Camurati. [s.i]: Quanta Central de Produção, 1994. DVD, color.
James. Imperiobrazil.blogspot. Império do Brasil. em 11.05.1010. Disponível em:
LELLIS, Francisco; BOCCATO, André. Os banquetes do imperador. São Paulo (SP): Senac São Paulo, 2013. 447 p.
Carnavalesco: Ney Junior
Enredo: Thiago Gomes, Claudio Rocha e Ney Junior.
Texto: Cláudio Rocha


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