quinta-feira, 8 de junho de 2017

GRES ACADÊMICOS DE VIGÁRIO GERAL (RIO DE JANEIRO/RJ)

“Dos Tambores Africanos ao Bandonéon: Tango, um Sentimento Que Se Dança”


S I N O P S E
Hoje em dia sou capaz de lotar casas de shows em qualquer lugar no Mundo, sou a principal referência cultural de dois países, já criei ídolos e músicas, que com mais de 100 anos, permanecem entre as mais executas. Quem me conhece hoje em dia, pode pensar que minha história sempre foi assim: rodeada de sucesso e glamour, que eu sempre fui esse belo cisne, ledo engano meus amigos. Nasci como o mais puro e legítimo patinho feio da história musical e cultural, sendo renegado, ignorado e humilhado por aqueles que hoje se orgulham em dizer que me criaram. Eh! Nada como um dia após o outro para que o legítimo e justo reconhecimento chegue a quem de direito pertence. Muito prazer, eu sou o ritmo que carrega uma tristeza e uma melancolia que conquistou o Mundo; eu sou o ritmo que mais exige entrega e proximidade corporal daqueles que querem me bailar. Eu, eu sou o TANGO, e eis aqui minha história.
Assim como o Brasil, a região do Rio da Prata fazia parte do comercio de escravos, alguns vinham da África e outros das Américas do Sul e Central. E é justamente na cultura africana que meu nome tem origem. Dentre os vários dos meus significados destaco os seguintes:
– Local de concentração dos escravos, antes de serem levados ao local de embarque;
– Locais onde negros se reuniam para bailar ao som de tambores e praticar o candomblé e;
– Corruptela da palavra Shangó (Xangô), Deus do trovão e das tormentas na mitologia Ioruba, associando o som do tambor ao som do trovão.
Os negros que chegavam da América Central, principalmente de Cuba, traziam consigo o som dos seus tambores, e da mistura de três outros ritmos: a milonga (de origem espanhola), a habanera (de origem cubana) e da batida do candomblé (origem Africana) enfim eu nasci.
Com o passar do tempo o termo Tango foi se restringindo à música e à coreografia africana.
Segundo o músico e escritor argentino Juan Carlos Cáceres sem o negro o Tango não existiria, pois toda base musical, sobre a qual se assenta a estrutura atual do Tango, é negra.
Já na segunda metade do século XIX os portos do Rio da Prata, principalmente Buenos Aires e Montevidéu, passaram a receber um verdadeiro tsunami de imigrantes (em sua maioria europeus) e de homens do campo, todos a procura de oportunidades de trabalho e de uma vida economicamente melhor. E foi justamente à beira do cais, diante dessa nova população, que comecei a me tornar o que sou hoje.
À medida que fui sendo absorvido pelo imigrante europeu e pelo próprio latino americano meu ritmo foi desacelerando, aproximando-me dos ritmos europeus como a valsa e a polca e minha melodia ganhou a participação de novos instrumentos como o violão, a flauta e o violino.
Apesar da diversidade de etnias e de culturas, todo esse caldeirão de imigrantes tinha algo em comum: a solidão e a saudade da terra natal. É daí que se firma a nostalgia que carrego em minhas melodias. Pode-se dizer que sou composto por três tristezas: a tristeza do escravo, que chegou aqui contra a vontade e as tristezas do homem do campo e do imigrante que sentiam a falta do seu lar. E num processo sem coordenação eu ressurgi como produto de um povo que procurava se enraizar numa terra e numa história que se não os expulsava, tampouco lhes dava a oportunidade para serem protagonistas dos acontecimentos.
Vejam bem minha situação: nasci à beira do cais, era composto por ritmos e passos das culturas africanas e europeias (a essa altura mais europeia que africana), minhas músicas eram batizadas com nomes carregados de sensualidade como: “Dos Sin Sacaria” (Duas sem Tirar), “Qué Polvo com Tanto Viento” (Gozo com Tanto Vento) e “El Choclo” (A Espiga de Milho, no sentido metafórico) e para completar, fui criado por um povo que tinha muitas aspirações e sonhos, mas nenhuma posse, ou seja, eu era tudo que a aristocracia portenha mais detestava, por sempre ter sido avessa aos costumes populares, e como se não bastasse me ignorar, passou a me condenar.
Portanto, nasci “arrabalero” (pertencente aos arrabaldes, prostíbulos e aos pobres imigrantes), não só pela minha origem, mas também pela proximidade com que os corpos dançavam. Era proibido às mulheres participarem dessa “dança maldita” e como, graças a grande imigração de mão de obra, a população argentina era de aproximadamente 70% de homens, eu só era praticado nos prostíbulos. E para causarem boa impressão as suas companheiras da noite e até mesmo aumentarem seu leque de sedução, os homens passaram a treinar e a aprimorar suas técnicas dançando entre si. Até hoje sou dançado com o rosto virado graças a esse fato.
A proibição imposta pela aristocracia não impediu minha disseminação desde os arrabaldes até o Centro, pois inventei culturalmente a classe média, me tornei seu primeiro modo de construir afetos e de expressar seu enraizamento em uma nova terra. Mesmo contra a vontade das oligarquias, uma nova cultura argentina estava nascendo.
Ahhhh! O Destino, sempre travesso e tão taful, reservou uma reviravolta praticamente inacreditável na minha história. Quando alguns imigrantes começaram a retornar a sua terra natal, a Europa, levaram consigo essa criação da classe média rio-platense. Imaginem a surpresa dos argentinos da alta classe ao visitarem a Europa e descobrirem que a grande sensação nos grandes salões e teatros era uma dança criada no seu próprio quintal. Sim, eu, o Tango era a grande febre na Europa, principalmente em Paris, referência em divulgação cultural em todo ocidente. E o que era bom para Paris, com certeza, seria bom para Argentina e Uruguai também e acabaram importando aquilo que havia sido inventado em seus próprios países. E mais uma vez ressurgi na Argentina, dessa vez, tendo a entrada franqueada a todos os salões nobres da minha terra. Uma concessão, porém foi feita para facilitar esse processo, os títulos deixaram de ser sexuais e passaram a enaltecer a Pátria, a família e principalmente o amor.
No inicio do século XX é introduzido nas minhas orquestras o mais tangueiro de todos os
Instrumentos: o bandonéon. Esse instrumento de origem alemã, muito utilizado nas festas folclóricas do seu país, torna-se de imediato o ator principal das orquestras de todos os bailes. O timbre profundo desse instrumento deu peso, gravidade ao meu ritmo, tornando-me uma dança onde o par dança junto ao piso, permitindo aos bailarinos demonstrarem toda sua arte de riscar o chão.
Continuei evoluindo durante o século XX, as milongas (nome dado aos locais onde se realizam os bailes de tango) se multiplicaram em Buenos Aires. Deixei de ser só instrumental e passei a ser cantado, atingindo assim a minha primeira Era de Ouro com o surgimento do maior cantor argentino de todos os tempos: Carlos Gardel, responsável por me levar a Hollywood e tornando-se a figura clássica do Tango cantado.
Nesse mesmo período, devido ao meu estrondoso sucesso, surgiu no Brasil um movimento musical batizado de “Tango Brasileiro”, mas que não passou de gênero mal definido. Artistas como Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga assim rotulavam suas obras, mas na verdade as suas belas composições eram uma estilização do Maxixe e que mais tarde se incorporaram ao primeiro ritmo urbano brasileiro: o Chorinho.
Nos anos 50 atingi a minha segunda Era de Ouro, muito graças ao bandoneonista e compositor Astor Piazzolla que revolucionou o Tango ao introduzir o Jazz e a música clássica as suas composições, criando o que se passou a se chamar de Tango Nuevo. Com a chegada de novos ritmos como o Rock e o Twist, fui perdendo popularidade, mas o surgimento de companhias de dança de Tango no fim do século XX, realizando shows baseados em uma belíssima produção e em coreografias hipnotizantes, fez com que eu ressurgisse mais uma vez e as batidas eletrônicas de grupos como Bajofondo e Gotan Project aproximaram-me novamente dos jovens. Esse meu último ressurgimento não deixa de vir com certa dose de ironia, a ironia de que em um mundo tão efêmero, de aparências tão fugazes, eu tenha a solidez de um passado talvez indestrutível.
É inegável que sou uma das principais manifestações de identidade de toda região do Prata e como a mais alta forma de reconhecimento do meu valor, em 2009 fui declarado Patrimônio Histórico e Imaterial da Humanidade pela UNESCO. O Tango “La Cumparsita” de autoria do uruguaio Gerardo Matos Rodríguez é considerado hino popular e cultural do Uruguai e o dia 11 de dezembro é o Dia Internacional do Tango.
Esse sucesso se deve, claro às poesias de amor nas minhas melodias e que encontram a perfeita materialização no abraço dos pares, um abraço que não é de um nem pertence ao outro, ele é o próprio encontro, é uma intimidade criada espontaneamente e sem garantia de permanência. Sou contágio e a melhor maneira de me executar é através de um contato próximo a outro corpo fortemente infectado. Na pulsação que ocorre no inspirar e expirar dos pares, temos o pulsar do Tango no fole do bandonéon.
Com muito orgulho o G.R.E.S. Acadêmicos de Vigário geral vem contar minha história em 2018. Como nas mais tradicionais milongas da minha terra faço o cabeceio* para convidá-los a bailar, apilando* nossos corpos em uma entrega mútua de sensações para uma tanda* que se estenderá por todo o nosso desfile.

Autores:
Alexandre Costa Pereira
Lino Sales
Marcus Vinicius do Val

Bibliografia:
“É Necessário Dois para Bailar Um Tango”; Autora: Lorene Gonçalves Soares; Editora: Libertas.
Documentário “Tango Negro – As Raízes Africanas do Tango” (Angola/França 2013); Direção: Dom Pedro.

Glossário:
Cabeceio: Código de conduta tangueira. Consiste em dirigir o olhar a alguma pessoa sinalizando que deseja dançar com ela. Havendo interesse a pessoa corresponde ao olhar e a confirmação do convite se faz com um suave movimento de cabeça.
Apilar: Estar abraçado de forma mais estreita, ao estilo milongueiro. Estar “apilado” é estar abraçado com boa conexão.

Tanda: Seleção musical, conjunto de músicas separadas por um intervalo.

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