“O
Frasco do Bandoleiro”
(Baseado
num causo com a boca na botija)
Glossário
de cousas dos lajedos e areais:
Frasco
(v.t.nordestina). 1. Recipiente de barro, fibra, madeira ou vidro. 2.
De lata, que guarda o cultivo. 3. Balangandã de galhadas, prenúncio
de vida local (povoado rural). 4. Amuleto das chuvas; aparador de
águas. 5. Refratário itinerante do Cangaço. 6. Botija – cofre de
finanças, tesouro que se enterra. 7. Ferramenta de artistas
mambembes. 8. Ou, o famoso se vira na vida (aperreio), como já é de
costume do nosso bravo povaréu nordestino.
ESSA
ESTÓRIA DAVA UM CORDEL PARA CORRER O MUNDO:
(Ou
estórias que o povo diz)
Lunário
perpétuo. Frascaria que reflete o azul celeste. Olhar desenhado por
linhas e varais de existência. Gambiarras são pontos de luz no
coração de mais uma cidadezinha dos sertões da vida. Horizonte
desvendado por um caminhar aberto por jegues pintados de zebras,
carroças e passadas chegantes.
Palhaços
tocam rabecas, malabares de cabaças cruzam o pouco ar que resta,
equilibristas manejam garrafas. Guardeados por Bastiões em dia de
Reis que portam ganzás de porongas. Na boca de cena, fantoches
feitos de coco, entoados por um estridente xaxado, encenam o cangaço.
Cangaço que parte para mais um alvoroço nas fazendas e vilarejos
adiantes – como de costume. Além de chefe bandoleiro, Virgulino
Ferreira da Silva, foi modelista, repentista, cinéfilo e financiador
de poetas e artistas itinerantes.
Pouco
pra Deus muito; muito para o bando, pouco. Cena de filme de faroeste
brasileiro ou “Bang-Bang”. Lenços cobriam a face dos
bandoleiros. Pelas mãos, inúmeros anéis dos quinhões de
mercadores, coronéis e fazendeiros. Seguem os alazões repletos de
frascos vazios desbravando o terror nas terras do sol eminente.
Arruaça feita, abastecidos: cuias de farinhais, cumbucas de
grãos-cereais, balaios de caprinos, gaiolas repletas de penosas,
bilhas da boa manteiga, pimenta-seca e o famoso perfume francês do
Capitão. Seguem ao desconhecido repletos de feitorias – fisco
temporário do viver.
Frascos
cheios, pé na poeira – Digamos. Nas grutas e cavernas a procura do
esconderijo perfeito, onde a vida não alcançou. Ecoa na voz dos
Ribeirinhos do “Velho Chico” estórias de tesouros perdidos.
Contam as rendeiras das proximidades do Vale do Raso da Catarina –
Bahia, que Lampião em sua hospedagem, teria enterrado em frascos
vazios de aguardente, moedas de ouro e prata, joias e parte de sua
“pila”. Até hoje, lá pelas bandas, ouve-se um cavalgar embalado
por “mulher rendeira”, hino ao cangaço. Difícil imaginar quem
ali se aventuraria a desenterrar tais botijas. Habitam o Raso, a
lenda da Catarina (Xamã que se perdeu da tribo), homens-lobos,
cruéis suçuaranas e a serpente encantada dos olhos de fogo.
Fora
dali a vida é hostil, terrosa. Sina coiteira comparsa ao Cangaço.
Vento seco, ar que falta no balançar dos penduricalhos – prenúncio
de vida rural. Frascos da lida de um povo solitário nos sertões
bravios que guardam a seiva do viver – botijas, talvez. Cercados
por limites naturais, fibras de murundus entrelaçadas, que pousam o
secar de cabaças e porongas. Mãos de acalanto ao barro denso que
moldam moringas, balaios, cestos do sacolejar até os açudes que nos
restam – santidades a Padim Ciço nas romarias – o pedido das
caatingas. Bens únicos ofertados pela natureza.
“Quem
manda em nós é o destino” e o destino quis que fosse assim.
Passos seguidos pela Volante na Grota do Angico-Sergipe, após
atravessar o São Francisco, uma possível calmaria. Noite financiada
por garrafas de vinho, meio a um cenário adornado de frascarias,
fiéis companheiras do bando. Cantis se apoiam nos xique-xiques e
facheiros; cestarias guardam cobertas e punhais; botijas-baús de
joias; purrões resumidos a um fio; na fogueira a chaleira aquecia a
água. Amanhece com eles, testemunhos do fim. Alvejados sem piedade,
degolados a mando, saqueados como nós, de costume. Cabeças rumaram
por meses; cidades como troféus erguidos em altares. Poucos foram os
que restaram para o findar dessa estória.
Oitenta
anos após o desaparecimento de Lampião e Maria Bonita, segue nosso
inocente povaréu em “pane seca”, a buscar mesmos tesouros: nas
caixas de feiras livres e mercados populares, em romaria empunhando
frascos – combustíveis do viver. Só que dessa vez, pouco
bandoleiros. Os Bandoleiros são outros.
(Conceito,
Desenvolvimento, Texto)
Marcus
Ferreira, Maio de 2018.
Bibliografia
Dirigida:
Imagens
do imaginário de Euclides da Cunha em Os Sertões (1902); Recortes
fotográficos de Carlos Coimbra em Lampião, o Rei do Cangaço
(1963); A Luneta do Tempo (2016) de Alceu Valença. O testemunho do
Libanês Benjamin Abrahão pelo documentário Baile Perfumado (1997)
e/ou a memória fotográfica de um viajante por esse Nordeste de
nosso Deus.
(Revisão
Textual) – Henrique Pessoa.
(Colaboração)
– Cláudio Russo.

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